o aviador irlandês

Guardar, guardar

Josef Sudek

Josef Sudek

Se há coisa que aprendi foi a guardar. Papéis, fotos, bilhetes rasgados, amassados, recompostos com fita-cola, objectos inúteis, até um fio de cabelo, coisas que não lembram a nenhum diabo. É que destruir aplaca a dor por pouco tempo, a gente rasga, deita fora, deixa a gaveta vazia, e sofre a ilusão de que com isso fica mais aliviada, e é mentira. E quando já só restar cinza quanto se lamentará a perda do que poderia contar quem um dia fomos.

Quem me mandaria deitar fora tanta história antiga, quem me disse que eu não lamentaria algum dia que me sobrasse só memória, tão incerta, tão enganadora? Não se ganha espaço, só vazio, e ao vazio há que preenchê-lo com qualquer coisa, atafulhá-lo com papéis e folhas secas, fragmentos de granito, seixos redondos da praia, pauzinhos apanhados pelo caminho, como um pássaro que vai construindo o ninho que não sobreviverá à Primavera.

Guardar coisas, descobri, é um exercício de aprimoramento de nós próprios.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on Novembro 6, 2013 by and tagged , .

Navegação

%d bloggers like this: