o aviador irlandês

Conta-me

Há gente a quem não podemos salvar. Nem escutando nem fazendo, nem perdoando nem pedindo explicações. Passam por nós já em queda, despedem-se nos portais, à noite, quando a sombra ainda pode ocultar-lhes o rosto. Podemos amá-los como a irmãos ou a amantes e vê-los afastar-se pelas vielas, pelo empedrado húmido da rua, com passos rápidos ou cambaleantes, e no final nem saberemos se chegámos a chamar pelo seu nome. Dizem-nos adeus na plataforma da estação, quando é de noite e faz frio, e é hora do regresso. E nunca mais voltam, nem respondem na volta do correio, nem se explicam.

Ou contam de mais, e sufocam-nos com mentiras, como um braço demasiado apertado à volta da garganta, para que os ouçamos melhor, para que não duvidemos. E é certo que precisamos que nos contem, precisamos de ser embalados com histórias, e por isso começamos por gritar mas acabaremos a repetir num sussurro, já quase adormecidos, “porquê, porquê, porquê?”

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This entry was posted on Outubro 7, 2013 by and tagged , .

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