o aviador irlandês

da morte súbita

Os dois amigos encontraram-se, como sempre, na manhã de domingo. Combinaram afazeres para a semana seguinte – apreçar o berbequim de que um deles precisaria, levantar uma receita no médico, comprar bilhetes para o futebol – e  despediram-se no final da manhã de domingo, imagino que devem ter apertado as mãos e cruzado olhares nesse momento, com esse afecto contido e envergonhado dos homens dessa geração. E afastaram-se, cada um para a sua casa, afastaram-se livres da gravidade dos últimos instantes, salvos pela ignorância que é a de todos nós, o absoluto desconhecimento do futuro, esse desconhecimento que alimenta a angústia mas também abre caminho à esperança.

E a meio da semana, na quarta-feira, num dia que amanheceu sem gravidade alguma, o mais novo dos dois amigos tombou subitamente no chão da padaria, sem queixumes prévios nem maus pressentimentos, tombou e somente se ouviu um ruído seco, um baque que fez arrepiar quem estava na padaria, e quando esse corpo tombou no solo já não havia vida nele. Quando a notícia lhe chegou, horas depois, o outro pensou naquela manhã de domingo, e lamentou não ter podido adivinhar.

Mas é uma sorte, não é? Nunca sabemos quando uma conversa banal se transformará num momento memorável, o último encontro com alguém, as derradeiras palavras trocadas. Nunca poderemos saber quando essa conversa que vamos mantendo ao longo de anos ficará de súbito truncada, suspensa entre dois planos que tampouco sabemos se alguma vez se cruzam ou se tocam. Ou talvez a conversa continue, mas de outro modo, talvez a voz do outro que reconstruímos com a memória e a imaginação, quando ela já não faz parte do nosso quotidiano,  talvez essa voz não seja menos autêntica do que a que ouvíamos, talvez seja até mais verdadeira.

Estes mortos súbitos, velas que se apagam com um sopro imprevisto, despertam nos vivos a necessidade de reconstituir cada fragmento de conversa, de buscar sinais que pudessem pressagiar o que iria acontecer. “Não estava igual ao costume”, “parecia mais triste”, “deu-me um abraço e não era habitual”, “estava muito alegre, não lhe passaria pela cabeça o pouco tempo que lhe restava”. E a cada rememoração começa a transformar-se a matéria da memória, e aquilo que era banal vai-se adequando à necessidade de ser extraordinário. Um aceno, uma derradeira cintilação, a despedida.

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2 comments on “da morte súbita

  1. José Magalhães
    Novembro 22, 2011

    Mais uma história cheia de sabedoria e muito bem escrita.
    Um abraço

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This entry was posted on Novembro 22, 2011 by and tagged , , .

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