o aviador irlandês

não faltam tentações às mulheres sérias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A janela que o calor de Julho obrigava a manter aberta invadia-nos o escritório com a colectânea de êxitos dos anos 50 e 60 que os vizinhos debitavam para todo a rua. Ouvíamos os Platters, e outros de que não sei o nome, e aquelas canções que parecem para a mesma moça, Oh, Carol, e Sweet Caroline, e por fim uma sucessão de êxitos do Elvis.

O volume subiu com “Hound Dog”, e o espírito do rei, elevando-se por sobre o quarteirão de edifícios de escritórios, entrou-nos pela janela, pesadão e cansado, com o fato branco e a capa (a capa!, quem mais se atreveria a usar capa?) dos concertos de Las Vegas, aqueles em que enfrentava o público de olhos semi-cerrados, mãos inchadas, a pingar suor para as quarentonas endinheiradas que pagaram bilhetes na fila da frente, a lançar ursos de peluche à plateia (“Baby, let me be/ your lovin’ teddy bear”).

E então as paredes do escritório estremeceram, o chão começou a vibrar, as pastas de arquivo saltitaram nas prateleiras, o fax começou a despejar páginas e páginas em branco, também ele tomado pelo ritmo das ancas do quarentão Elvis, e o espírito do rei materializou-se na clareira entre as secretárias, em perfeita e estudada pose, a ofuscar-nos com o reflexo do sol no seu relógio gigantesco e prateado.

Era um Elvis gordo e já semi-derrotado pelas pastilhas e pelo álcool, pelos longos anos rodeado de uma corte que o adulava mas não o deixava respirar, pela ausência de Priscilla, que se cansara de dormir sozinha. Mas ainda era o rei, e ainda sabia fazer o trejeito com o lábio carnudo, e aquele sorriso que misturava sedução e leve troça, mas também inocência e fé nos outros.

Pigarreou, ajeitou o microfone, e ali mesmo, em pleno escritório, mesmo ao lado do armário onde guardamos as caixas do papel de cópia, a dois passos das secretárias, sob o olhar incrédulo mas encorajador das moças (ainda bem que o Sr. Fonseca está de baixa), levantou os olhos para nós, e começou por dizer-nos que talvez não nos tenha tratado tão bem quanto devia, e talvez nem sequer nos tivesse amado tantas vezes quanto podia, e que bem poderia ter feito tantas pequenas coisas, se tivesse tomado tempo para isso, mas, que diabo!, estivemos sempre na cabeça dele.

A Filomena desmaiou por essa altura, aguentou sempre pouco com os homens, por isso acabou tão mal casada, mas a Albertina e eu aguentamos firme, sem lhe dar trela, eu a dobrar umas cartas que tinham que seguir nesse dia, e ela a pôr uns últimos carimbos. O rei desunhou-se, suou como um condenado, reluzia-lhe a testa tanto quanto o relógio, mas nós fizemos de conta, e o espírito, que também deve ter o seu orgulho, não duvido, lá se foi, tal como tinha vindo, pela janela aberta.

Não faltam tentações às mulheres sérias.

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2 comments on “não faltam tentações às mulheres sérias

  1. Carlos Fonseca
    Setembro 8, 2011

    Essa do Sr. Fonseca é comigo? :):):):):)
    Porque a tentação é um sentimento humano sempre muito sério, nas sérias como nas outras. Às vezes naufraga em mar de sérios sarilhos.
    Bjs,
    Carlos F……

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This entry was posted on Agosto 9, 2011 by and tagged , , , , .

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