o aviador irlandês

o senhor Falk despede-se

Peter Falk tinha esse ar de quem não se leva demasiado a sério, e só em certas noites de solidão – num bar de hotel, em viagem, na casa vazia – se detém a pensar nas tristezas do mundo.

O seu olhar, o seu inconfundível olhar assimétrico, tinha algo de burla, de quem vê em tudo uma graça benigna, que não ofende nem diminui, tinha algo de ternura e desencanto, mas também de desconcerto infantil.

O tenente Columbo, aquele seu detective canino, de gabardine surrada, charuto ao canto da boca, deambulando para a frente e para trás, até enervar os suspeitos, numa sucessão de perguntas intermináveis – “só mais uma coisa… só mais uma coisa” – ganhou-lhe demasiado espaço, quase apagou o seu verdadeiro nome. Talvez por isso, Wim Wenders lhe tenha oferecido o papel de Peter Falk e revelado o seu desconhecido passado de anjo que, entediado com uma imortalidade passiva, renunciou à sua condição divina e escolher ser humano.

Agora findou-se essa existência terrena mas parece-me que continuaremos, tantos de nós, a recordar essa piscadela de olho trocista e aquele jeito de andar meio de lado, meio torcido, sacudindo a cinza sobre os sapatos, com a cabeça nas nuvens e a borda da gabardina enlameada.

Um anjo caído, um sem-vergonha.

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This entry was posted on Junho 25, 2011 by and tagged , .

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