o aviador irlandês

De uma carta deixada no Santa Cruz

Pela Corpo de Deus abaixo, nesse plano inclinado de empedrado sujo, a arder em brasa, onde me cruzo com a velhota que vai subindo com o mundo aos ombros – transfigurado numa trouxa de roupa -, e pára muito antes de se cruzar comigo para poder ver-me bem, com os olhos semicerrados para que o sol não estorve esse escrutínio lento, o rosto emoldurado pelas farripas de cabelo cinza que se escapam do lenço negro. Pela Corpo de Deus abaixo, penso que em todos os momentos desci esta rua. Antes de todas as grandes cagadas, antes da glória. Sempre esta rua, à chuva e ao sol, sempre esta rua. Quando se chega lá abaixo, à Visconde da Luz, a decisão já vai tomada, e tudo parece acertado. Tudo o que fora sombrio e incerto na descida pela rua sinuosa amplia-se e ilumina-se quando se chega lá abaixo e a calçada se faz suave, plana, as famílias caminham em passo de domingo, os adolescentes partilham auriculares, nenhuma inquietude, nenhuma razão para o desassossego.

E depois já sabes, deixo-me levar pela corrente até ao Santa Cruz, abrigo dos que chegam das vielas. Os romenos trazem os miúdos a pedir aqui para a praça e respondem com um safanão quando eles lhes pedem um chupa ou um gelado. Não são todos, já sei, exagero. Vi essa cena uma vez e nunca mais entrei no Santa Cruz sem lembrar-me do pai embrutecido e da cara do miúdo, os olhos incendiados do miúdo. Daqui a uns anos espeta-te uma faca na garganta e nunca mais lhe dirás que não, foi o que pensei quando o vi, e dei por mim especado frente a eles, sem conseguir voltar-lhes as costas para entrar no café. E agora é sempre essa imagem que regressa, de cada vez que atravesso a esplanada, vem-me à mente o raio do miúdo e penso que assisti ao nascimento de um assassino.

Nem sei porque te conto isto, não é nada do que queria escrever-te. Sabes onde estou, tenho a certeza. Mesma mesa, mesma cadeira. Daqui vejo e sou pouco visto, pouco mas o suficiente para ser encontrado se alguém me buscasse. Sento-me, bebo um café ou uma cerveja, um copo de água, um brandy, tanto dá, porque o que eu faço aqui é sobretudo rezar, compreendes? Estas rezas só minhas, sem deus nenhum, só eu e às vezes tu, a velhota da Corpo de Deus, o ciganito que quer matar o pai. Estas rezas que não levam a lado nenhum, só a que eu fique aqui sentado, parado ou a escrever-te estas cartas, e a pensar que rezar é isto, ficar quieto, ficar calado, deixar que tudo se aquiete e que os rostos venham à tona, o que eu vi, o que fiz, não fiz, tudo desfila à minha frente, e à luz do Santa Cruz, a esta luz que os vitrais da porta filtraram, não sinto alegria mas pelo menos tenho paz. Estar lúcido traz-nos paz mas raramente alegria, não te parece?

Mas isto tudo é só para dizer-te que pensei muito e acho que é melhor que não voltes. Pensa bem: o mais difícil já está, que era saíres. Agora só tens de continuar a afastar-te, cada vez mais, até já não sobrar nada. Que levaste daqui? Não te mostrei nenhuma cidade romântica, nem sombras de capas de estudante ou serenatas ao luar. Um quarto de pensão, com os tectos picados pela humidade; uma subida penosa pela Sá da Bandeira, com o barulho dos carros a abafar tudo o que eu queria dizer-te, um tipo a gritar à mulher de uma varanda num terceiro andar, enquanto ela se afastava pela rua abaixo, tanto nos custou chegar lá ao cimo, porque eu tinha a ideia de sentar-me contigo no jardim da sereia, estava convencido de que ali encontraria as palavras para dizer-te tudo o que acreditava que tinha de dizer-te, e quando chegámos tu não quiseste entrar no jardim. E eu não insisti e fiquei o resto da tarde calado, enquanto andávamos por aí sem rumo.

Aqui tudo seca, tudo arde. A cidade vive do que passou, respira melancolia fajuta, tudo é ruína, escombros, sombras de qualquer coisa que já não está lá ou talvez nunca tenha estado. E eu sou igual, tu sabes. E por isso venho de lá de cima com os ombros descaídos pelo peso do mundo, decidido a dizer-te que não voltes, ansioso por poder afundar-me numa tristeza que passo a vida a evocar, como se tudo fosse só isto, belas fachadas em ruínas, casas destroçadas, um passeio ao cair da noite de domingo pelas ruas desertas, com essa tristeza que têm as ruas ao domingo à noite, as grades corridas, os armazéns de atoalhados, um cartaz de aluga-se de uma casa invariavelmente apodrecida, de um senhorio que invariavelmente se chama Sr. Marques. Um romantismo fora de tempo, atrasado, bafiento. Voltar para quê? Rasga esta carta e esquece esta cidade.

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3 comments on “De uma carta deixada no Santa Cruz

  1. *
    Fevereiro 24, 2011

    Pela Corpo de Deus abaixo…A Corpo de Deus! Há tantos anos que não vou pela Corpo de Deus. Há tantos anos que não me lembrava dela.
    Agora, aqui em Lagos, vi-me pela Corpo de Deus abaixo, na primeira vez, com amigos. Surpreendente e difícil de adjectivar, a Corpo de Deus.

    Bj
    A. Pedro

    • carla romualdo
      Fevereiro 25, 2011

      as ruas que as pessoas têm em comum, não é?

      Beijo

  2. carlos fonseca
    Fevereiro 25, 2011

    O corpo do vagabundo prostrado pelo tinto que sorve, sem saborear; o corpo do jovem “ganzado”, que se sorri de feliz infelicidade; o corpo dormente da velha que o sente apenas pela dor; o corpo da jovem a balancear a provocação, sob o olhar malandro do machão; e o corpo da escrita da Carla Romualdo de que tenho andado arredado (mil perdões!). São todos corpos de um deus sem praça, largo, rua ou travessa. São corpos do mundo, com direito a espaços em qualquer lugar que outros escolham. Sem necessitar de permisssão prévia, a não ser da ditada pela própria alma que lhes imprime o rumo.
    Do corpo fluído da tua escrita, já tinha saudades arrastadas por culpa própria. Desculpa, felicitações e um beijo. Até à volta aqui no Aviador que é teu e só teu. É a única rua em que visito o corpo da tua divina prosa.

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This entry was posted on Dezembro 31, 2010 by and tagged , .

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