o aviador irlandês

alvoroço na rua

A Fatinha deveria andar a fazer o que sempre faz: andar de lado para lado, como se sempre estivesse a caminho de qualquer lugar aonde nunca consegue chegar, quase sempre de minissaia, a custo equilibrada nuns saltos altos.

A Fatinha, sendo uma mulher bonita, assusta os homens com um olhar de louca impossível de disfarçar. Crava cigarros, troca frases sem sentido com algum sem-abrigo, pendura-se no pescoço de um homem sentado na paragem do autocarro, insulta uma mulher que a olhou de lado, anda todo o dia na rua, não se sabe em quê, e tanto pode pedir com gentileza um copo de água num café, como chamar puta-badalhoca à velhota que lhe pede ajuda para abrir o guarda-chuva.

Olha-se para a Fatinha, sempre limpa, até bem-vestida, sem marcas de agulhas nas pernas, sem aspecto de quem vive na rua, e não se sabe que mal é o seu.

Hoje a Fatinha deveria andar a fazer o que sempre faz quando deu de caras com a mãe. A mãe dela é uma senhora enxuta, de cabelo prateado, passos rápidos e voz aguda. Tinha vindo para buscar a Fatinha à rua, porque lhe haviam dito que a polícia andava por ali, e foi encontrá-la debruçada na janela do carro de um homem gordo, de cara bexiguenta. Enxotou-a para casa aos berros.

– Eu vou-te internar, ouviste?! – gritava a mãe atrás dela, e a Fatinha caminhava, olhando para trás,  em lágrimas, dando-lhe as costas outra vez, gritando-lhe de volta.

– Está bem, mãe, agora pára!

Mas a mãe da Fatinha vê-se que já não pode mais parar.

– E  acabou-se o dinheiro para o café, ouviste?

– Pára, mãe!

A Fatinha sacudia-se toda, saltava sobre as sandálias altas. O rímel escorria-lhe pela cara.

– A maior escumalha é quem pára aqui contigo na rua, todos fazem pouco de ti, não vales nada! Perdida!

Solta um grito agudo e a Fatinha tapa os ouvidos, baixa a cabeça enquanto caminha e de repente pára e começa a puxar os cabelos

– Cale-se! Eu vou-me matar, vou, vou, vou!

A mãe levanta o braço, esboça uma corrida que não chega a dar, como se aquele fosse o maior insulto, a maior ignomínia que lhe estava reservada. E a Fatinha corre à frente dela, aos saltinhos sobre as sandálias de plástico, com o beicinho  de criança contrariada por ter sido outra vez apanhada em falta. A mãe vai atrás, arrasta os pés cansados, grita de vez em quando, como quem soluça: Minha tola, minha perdida.

E a Fatinha vai olhando para ela, espreitando-a para medir quanto tempo levará a poder sair outra vez, quanto será preciso para que ela a aceite nos seus braços, chorosa, e lhe perdoe a falta de juízo.

Quando as duas desapareceram na esquina, a rua retomou o seu sossego e ninguém voltou a pensar nelas.

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7 comments on “alvoroço na rua

  1. adao cruz
    Agosto 8, 2010

    A história, muito bem escrita, de ontem, de hoje e de amanhã, numa sociedade que perdeu todas as esperanças.

  2. luis eme
    Agosto 10, 2010

    todos, excepto o homem gordo das “bexigas doidas”…

  3. carlos fonseca
    Agosto 11, 2010

    Ambas sofrem. Figuram na mesma fotografia, de sofrimentos indivisos. Talvez para a mãe a dor seja mais intensa e sentida.

  4. Luis Moreira
    Agosto 13, 2010

    Há uma Fatinha em todos os bairros…e homens gordos tambem! Mas a dor daquela mãe…

  5. maria monteiro
    Agosto 17, 2010

    Pelos anúncios em tudo que é jornal há muitas senhoras donas Fatinhas que as mães nunca sonharão a dupla vida que as filhas levam

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This entry was posted on Agosto 8, 2010 by and tagged , , , , .

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