o aviador irlandês

tens um amigo

Cruzo-me por vezes com uns motoqueiros beras, daqueles que dão mau nome a todos os outros, e se passeiam com cara de matador e blusão com motivos hitlerianos. Quando acedem a parar no semáforo olham com desprezo em volta, e esse olhar abarca-nos a todos: pretos, coxos, imigrantes, beneficiários do rendimento mínimo, homossexuais, os que votaram sim no referendo do aborto, neo-liberais, ultra-esquerdistas, tanto faz, vai dar ao mesmo.

Há dias ocorreu-me uma ideia. E se houvesse ainda esperança para estes tresmalhados? E se fosse possível pegar nestas criaturas e humanizá-las até à medula? Humanizá-las de um modo tão transformador, tão intenso, tão exagerado que as deixássemos em lágrimas por inadvertidamente pisar uma formiga?

E então ocorreu-me o projecto no qual creio que deveriam investir-se não só recursos financeiros, mas também o tempo e os serviços experimentados de um conjunto multifacetado de especialistas: a criação de campos de reeducação para neonazis recalcitrantes.

Começariam o dia bem cedo, como é apanágio de qualquer campo desta natureza, dando as mãos e cantando, em roda, o “It’s a small world afterall”, rodopiando até se deixarem tomar por um sentimento de fraternidade a toda a prova. O programa deveria ser adocicado até à náusea para penetrar-lhes a carapaça coriácea. Passeios pelo campo ao fim da tarde, sestas embaladas pelo James Taylor garantindo-lhes “You’ve got a friend”, terapia de abraços, e muita, muita verbalização de sentimentos.

Quando por fim lhes dessem alta haveriam de cavalgar de novo as suas motas convertidos em anjos do bem, recuperados para a vida em sociedade, desejosos de ir pregar a igualdade entre todos.

A ideia parece-me talhada para o sucesso. E como o melhor é começar pelo nosso meio mais próximo, creio que vou começar por propô-la ao Rui Rio. Se ele recusar, o que temo que possa acontecer por dar preferência a métodos de conversão mais varonis, é certo que Gaia pelo menos cederá o terreno.

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5 comments on “tens um amigo

  1. luis eme
    Agosto 8, 2010

    é sempre bom ter esperança, tal como é bom não perder a imaginação…

    e por falar em imaginação, vi uns fulanos daqueles que se passeiam na rua com aqueles cães de raças esquisitas, com coleiras com bicos.

    também eram bem “caçados” para o tal centro de “humanização”.

  2. Luis Moreira
    Agosto 8, 2010

    …e a apagar fogos?

  3. adao cruz
    Agosto 8, 2010

    Sobretudo a apagar fogos, limpar as matas, as ruas, as cidades.
    Mas Carla, nunca lavraste por tanta utopia!

  4. Carlos Loures
    Agosto 8, 2010

    Vou meter uma cunha por essas criaturas das motos (que se dividem em “motoqueiros” (termo brasileiro, creio) e “motards” – basicamente, são semelhantes, mas pertencem a classes sociais diferentes. Estou numa localidade da província de Málaga e ontem desloquei-me à Grã-Bretanha (Gibraltar). Apanhei com uma concentração de “motoqueiros”, milhares deles, bebendo milhares de litros de cerveja. Gritando ao som de um conjunto que num palco montado na praça principal emitiam ruídos perfurantes. Uma balbúrdia.

    Aqui há tempos, numa estalagem alentejana, almocei numa sala onde havia dezenas de “motards” do Clube BMW. Conversas em voz baixa, num registo que denotava elevada escolaridade e conta bancária saudável. Ora bem, conheço exemplares de uma e de outra espécie e por isso digo que basicamente são semelhantes – gente já não muito jovem (ou mesmo idosa) que em cima das máquinas se sente livre e membro de uma irmandade tipo maçónica. Não me parece que venha mal ao mundo trazido quer pelas Harley-Davidson de uns, quer pelas BMW dos outros. O motoqueiro que conheço é uma excelente pessoa; os “motards”, são colegas do mundo da edição, Em cima das motos vivem uma ficção, sentem-se deuses e por isso olham os outros mortais com alguma sobranceria. Na sua maioria, uns e outros, são pobres-diabos. Não os metas em campos de trabalho, Carla. Deixa-os viver no seu mundo.

    Este, de facto, não é nada agradável.

    PS – Continuas a escrever magnificamente.

  5. Carlos Loures
    Agosto 10, 2010

    Relendo o meu comentário, duas observações: primeiro,aqui e ali o uso de gramática violenta (ou melhor, violentada). O sentido percebe-se. Depois a minha omissão relativamente a neonazis e traficantes de drogas. A minha tolerância não abarca essa escumalha. A esses, a designação de «tresmalhados», usada pela Carla, é bondosa. Não creio que mereçam ser reabilitados. Referia-me a motoqueiros e a motards que vivem a estrada como uma aventura de cavalaria – felizmente são a maioria.

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This entry was posted on Agosto 7, 2010 by and tagged , , , , , .

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