o aviador irlandês

Estado a mais e Estado a menos

O A. Pedro Correia assinou ontem no Aventar uma provocação inteligente sobre a recente proibição das corridas de touros na Catalunha, pondo-se como ele reconhece, a jeito para os ataques que se adivinham.

Nunca assisti a uma corrida de touros, a não ser naqueles atabalhoados instantes em que procurava o comando para mudar de canal, e a única vez que entrei numa praça de touros foi em Ronda, na Andaluzia, mais em perseguição dos fantasmas de Orson Welles e Hemingway, que por ali andaram, do que movida pela curiosidade pelo mundo tauromáquico. Cirandei pela vazia praça de touros de Ronda sob um sol impiedoso, sem nunca conseguir pôr-me na pele do touro, e sem tampouco conseguir aceder a esse mistério profundo que leva os aficionados a ver nesse ritual uma celebração da vida e da morte. Saí como entrei: se é certo que o toureio me horroriza nem por isso me satisfaz a ideia de que quem o aprecia só pode ser bárbaro e cruel.

Honestamente, gostaria que as corridas de touros terminassem não por decreto mas porque fosse nascendo uma consciência global que repudiasse a imposição do sofrimento, qualquer que fosse a forma de que essa imposição se revestisse. Dir-me-ao que este desejo é demasiado utópico e que, dada a lentidão com que essa consciência vai irrompendo, devem tomar-se medidas que acelerem um processo que poderá tardar ainda muitos anos. Admito que sim, mas o problema disto é que o Estado, quando picado pela mosca da intromissão na vida social, nos costumes e nos hábitos privados, tem dificuldade em refrear-se.

É certo que aquilo que surge mascarado como preocupação com os direitos do animal não deve ser mais do que as ganas de pôr fora do território catalão o último grande símbolo do Estado espanhol. Mas se os direitos do animal não suficientes para convencer alguma opinião pública, a repetição ad nauseam por parte da comunicação social de entrevistas com velhos aficionados a cuspir insultos aos legisladores, a gritar “Viva España!” com ar de quem a 20 de Novembro ainda manda rezar uma missa pela alma do Franco, ou espectáculos como o vídeo de despedida antes de férias de Mariano Rajoy, que começa e termina com a mesma imagem do touro da Osborne, dão uma ajuda.

Na mesma comunidade autónoma da Catalunha foi aprovada há dias uma lei que obriga os pais adoptivos a comunicar aos seus filhos que estes foram adoptados e essa informação deve ser prestada, no limite, até a criança cumprir 12 anos. Que tem a Generalitat catalã a ver com o momento em que as crianças devem ser informadas sobre a sua condição de filhos adoptivos e não biológicos? Quem decide que os 12 anos são o momento limite para que uma criança descubra a sua origem? O Estado? E que acontecerá aos pais infractores? Serão as crianças convocadas, a partir do dia em que cumpram 12 anos, a comparecer perante uma comissão que as interrogará acerca do que sabem sobre o seu nascimento?

Por cá foi hoje conhecida a intenção do Governo português de impor o levantamento do sigilo bancário a quem pretender receber o abono de família. Até há pouco tempo, considerava-se que o sigilo bancário apenas poderia ser quebrado se houvesse algum indício de prática criminosa. Com esta proposta, bastará a candidatura a uma prestação social básica para que o Estado possa vasculhar aquilo que era privado, sempre sob o argumento da justiça fiscal, e tendo como inquestionável e mobilizador objectivo o da poupança aos cofres do Estado.

Haverá sempre quem encolha os ombros e diga que, não tendo nada a esconder, nada tem a temer. Nada mais falacioso. Todos temos a perder com um Estado totalizador, disposto a esquadrinhar ao milímetro as vidas privadas, sob o pretexto de que os cidadãos cumpridores não têm razão para repudiar essa invasão. Ora, eu não quero que o Estado tenha acesso à minha conta bancária, e possa espiolhá-la sem limites, não porque tenha alguma coisa a esconder, não porque nessa conta entrem rendimentos que o Estado não conhece, mas porque o Estado e as suas centenas de milhar de burocratas, cujos rostos e nomes não conheço, mas a quem terei de autorizar que pesquisem a minha vida íntima, não têm nada a ver com a minha conta bancária nem com o que eu faço com ela. Se eu fujo às minhas obrigações para com o Estado, então deverá ser ele, o Estado, a prová-lo, e não terei de ser eu a demonstrar a minha situação de legalidade.

Não deixa de ser curioso assistir a esta tendência actual de Estados que se vão aproximando de uma postura cada vez mais liberal no que respeita à legislação laboral, à privatização das grandes empresas públicas, à cobrança dos serviços públicos essenciais, tornando-se, em simultâneo, cada vez mais controladores das vidas privadas.  Mas, enfim, nada que Orwell não nos tenha ensinado há muito tempo.

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10 comments on “Estado a mais e Estado a menos

  1. adao cruz
    Agosto 4, 2010

    Um bom texto, Carla, como é habitual. Onde dizes “não deixa de ser curioso assistir a esta tendência actual de Estados…”, também não ficaria mal dizer “não deixa de ser curioso assistir a esta decadência actual de Estados…”

  2. luis eme
    Agosto 4, 2010

    o meu avô era um grande aficcionado. o meu pai também gostava das touradas de morte espanholas, sendo adepto da feira de Sevilha.

    eu também gosto da tourada apeada, do desafio que é enfrentar o touro de frente, seja pelo matador de touros seja pelos forcados. já o toureio a cavalo nunca me despertou qualquer interesse. acho que é um duelo menos leal.

    acho o desafio do homem em frente do animal da arena, apenas com uma capa e com a arte de tourear, algo de sublime. pode parecer estúpido, mas se o homem desafia a morte de tantas maneiras (corridas de motas, automóveis, etc), esta é mais primária, mais próxima da nossa natureza selgvagem

    provavelmente por uma questão de educação não consigo olhar para as touradas como algo bárbaro. até por saber que os touros são criados apenas para as faenas, Carla.

    bárbaro para mim é ler nos jornais, quase todos os dias, que há homens que continuam a espancar as mulheres, as namoradas e os filhos, e claro, a assassinar. muitas vezes perante a passividade da vizinhança…

    • Carla Romualdo
      Agosto 5, 2010

      Luís, entendo o que diz, ou acho que entendo, mas não creio que possamos harmonizar as nossas opiniões sobre este assunto. Chegamos aqui a partir de experiências de vida diferentes, o Luís tem uma visão dos touros que eu não posso ter e creio que apenas podemos tentar entender o outro, sem necessidade de partilhar a mesma opinião.

  3. luis eme
    Agosto 5, 2010

    claro, Carla.

    também se podem partilhar opiniões diferentes…

  4. luis eme
    Agosto 5, 2010

    e devem…

  5. Ricardo Santos Pinto
    Agosto 5, 2010

    Carla, não vejo por que razão o Estado não pode legislar relativamente aos direitos dos animais. Ainda há pouco tempo foi proibida a utilização de determinados animais selvagens nos circos – e muito bem.

  6. Pedro
    Agosto 6, 2010

    “Não deixa de ser curioso assistir a esta tendência actual de Estados que se vão aproximando de uma postura cada vez mais liberal no que respeita à legislação laboral, à privatização das grandes empresas públicas, à cobrança dos serviços públicos essenciais, tornando-se, em simultâneo, cada vez mais controladores das vidas privadas. Mas, enfim, nada que Orwell não nos tenha ensinado há muito tempo.”
    É exactamente isso, Carla.
    Mas ainda é pior quando são os cidadãos comuns a organizarem-se para que haja cada vez mais controlo sobre as vidas privadas. E isso está, cada vez mais, a acontecer.

    Continuação de bons voos, há mais céu do que mar.

  7. miguel dias
    Fevereiro 24, 2011

    Carissima:
    grande texto (e sim gosto de touradas) e grande blog (outra coisa não seria de esperar). Mas assalta-me uma inquietação: nada consta em 2011.

    • carla romualdo
      Fevereiro 25, 2011

      Pois é, Miguel (há quanto tempo não falava contigo!), tenho andado a escrever outras coisas e com o preço do gasóleo pela hora da morte deixei o avião em terra. Vou investir nas energias alternativas e um destes dias volto a ligar o motor.

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This entry was posted on Agosto 4, 2010 by and tagged , , , , , , , , .

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