o aviador irlandês

Pisar a relva

Os portugueses citadinos, mesmo que escondam a longínqua memória de uma infância rural, têm medo do verde. Entram nos parques com cerimónia e a sensação de que não pertencem ali, como quem teme tropeçar num degrau da escadaria de uma casa nobre, ou escolher o talher errado à mesa de banquete, olham com certo escândalo os turistas esparramados na relva, de perna despudoradamente afastada e joanete ao léu, e caminham com desconforto, quando não com saltos altos ou blazer abotoado.

É novíssima a moda do verde, ainda há pouco nos bastavam as avenidas rasgadas por quadros comunitários e as paredes envidraçadas dos centros comerciais, e eis que agora é forçoso passar uma tarde entre os liquidâmbares de Serralves, ser visto na esplanada, inspirar com voluptuosidade o ar saturado de oxigénio.

Mas tanto nos estranha este mundo que não é raro assistir a um episódio como o desta senhora que, entusiasmadíssima por avistar uma flor entre a folhagem, anunciou bem alto:

– Está ali uma flor! Ai, eu tenho de ir cheirar aquela flor, ai desculpem mas eu não me aguento! Que linda flor, como se chamará? – e como não havia maneira de se chegar à flor sem avançar pelo relvado, olhou para os lados, pediu “com licença” a um polícia imaginário e pisou a relva com as pontas dos sapatos, preparando já mentalmente a desculpa que daria ao guarda que a viesse interpelar.

Que alívio o seu quando finalmente saiu do parque sem que ninguém lhe tivesse pedido contas da relva pisoteada.

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4 comments on “Pisar a relva

  1. José Magalhães
    Junho 29, 2010

    Durante anos foi proibido pisar a relva, como se a coitada se queixasse em altos berros. Alguma razão deve ter havido para tal norma, mas hoje ela já não se compreenderá.
    Os Portugueses citadinos são uns «coitados», habituados ao cimento e ao alcatrão das suas vidas.
    Quando fui a primeira vez a Londres, admirei-me ao ver tanta e tanta gente a desfrutar do verde da relva, andando, pisando, jogando, deitando-se nela e o mais que se possa pensar.
    Ainda não chegamos a esse nível de educação.

  2. César Nóbrega
    Junho 29, 2010

    Sou orgulhosamente do campo. Sever do Vouga é uma pequena vila encaixada num vale entre as cidades de Vale de Cambra (depois de se subir e descer a Serra da Senhora da Saúde) e Viseu.
    Há quase uma década estou a morar no centro do Porto. Confesso que adoro morar no centro – tenho tudo à mão. Mas quando vou a Sever do Vouga sou capaz de ficar horas sentado a ouvir os pássaros cantar. A minha irmã vive lá… e não percebe o que fico a fazer sentado a olhar o infinito. Mais, os meus sobrinhos pequenitos não param de me perguntar o que estou a fazer… porque é que não estou a jogar à bola com eles… nem eu sei… não é pedantismo… é saudades da minha infância. Só que eles têm aquilo sempre.
    É verdade que agora está na moda ser amigo de Serralves. Há gente que nunca viu uma galinha e acha que os ovos vêm do Continente. Eu cresci no meio da terra, e por isso gosto dela. Quem cresceu no meio de betão, não sei do que gosta. Acho que a nossa geração, dos 30 e tal têm falta disso – terra – mexer com os dedos na terra, sujar-se. E agora chamem-me nomes à vontade! Pareço um hippie…
    Que se lixem as crises económicas, as grandes depressões, as guerras mundiais, as epidemias…

  3. luis eme
    Junho 30, 2010

    acho que nem sempre é medo de pisar a relva.

    por exemplo nos (poucos) jardins de Almada, apesar da sinalização proibir a “pastagem” de cães à solta pela relva, os donos acham que aquele é o “cagatório” ideal para os seus “queridos”, fazendo com os pais tenham de ter algum cuidado com as suas crianças, mesmo que adorem rebolar na relva.

    nos jardins dos outros países não assistimos a este espectáculo, nem ao habitual hábito de deitar “lixo” doméstico para o chão (pontas de cigarros, lenços, garrafas de água, latas de bebida, etc). é agradável pisar e sentar na relva, pois não estamos sujeitos a receber “presentes”…

  4. Carlos Fonseca
    Julho 1, 2010

    Imigro amiudadas vezes da capital para a aldeia, mais concretamente Ribeira das Vinhas no Alto Alentejo. Aqui piso relva, folhas de sobreiro, junco e não sei o que mais; ao som da passarada, projecto olhares sobre manchas de verdes que, ao longo de cada ano, se esbatem, acastanham e amarelecem, para renascer no seguinte. É a natureza que me invade e sem pedir licença. Eu não reclamo. Gozo.

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This entry was posted on Junho 28, 2010 by and tagged , , , .

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